Introdução: o risco não é estático
O sistema financeiro enfrenta hoje um conjunto de riscos que, há duas décadas, sequer existiam em sua forma atual. O risco cibernético, o risco climático, os riscos associados a criptoativos e à inteligência artificial, as vulnerabilidades criadas pela dependência de provedores tecnológicos concentrados — tudo isso representa uma nova fronteira da gestão de riscos.
Esses são os chamados riscos emergentes: não necessariamente riscos completamente novos, mas riscos que se tornaram muito mais relevantes devido a mudanças estruturais no ambiente econômico, tecnológico e regulatório.
O Comitê de Basileia, o Financial Stability Board (FSB) e reguladores nacionais — incluindo o Banco Central do Brasil — estão incorporando esses novos riscos ao arcabouço prudencial, exigindo que as instituições os identifiquem, mensurem e gerenciem adequadamente.
Características dos riscos emergentes
Os riscos emergentes compartilham algumas características que os distinguem dos riscos tradicionais e os tornam especialmente desafiadores de gerenciar:
- Maior incerteza — dados históricos limitados dificultam a modelagem quantitativa
- Evolução rápida e imprevisível — o cenário de risco pode mudar substancialmente em pouco tempo
- Potencial de impacto sistêmico — podem afetar simultaneamente múltiplas instituições e mercados
- Natureza transfronteiriça — frequentemente transcendem jurisdições e reguladores
- Interconexão com riscos tradicionais — se manifestam por meio de canais como risco de crédito, mercado e operacional
Risco climático: uma nova dimensão do risco financeiro
O risco climático tornou-se uma das preocupações mais urgentes para reguladores financeiros em todo o mundo — e com razão. As mudanças climáticas têm implicações financeiras diretas e potencialmente muito significativas para as instituições financeiras.
Risco físico
O risco físico está associado a eventos climáticos extremos — enchentes, secas, tempestades, ondas de calor — que podem afetar diretamente ativos físicos e a capacidade de pagamento de tomadores de crédito. Uma empresa cuja produção é interrompida por eventos climáticos extremos pode tornar-se incapaz de honrar suas obrigações financeiras. Portfólios de crédito imobiliário em regiões vulneráveis a eventos climáticos podem sofrer deterioração significativa.
Risco de transição
O risco de transição está associado à mudança em direção a uma economia de baixo carbono. Alterações regulatórias, avanços tecnológicos e mudanças nas preferências dos consumidores podem reduzir drasticamente o valor de determinados ativos ou comprometer a viabilidade de setores econômicos inteiros. Empresas altamente dependentes de combustíveis fósseis, por exemplo, podem ver seu valor de mercado cair significativamente em um cenário de transição energética acelerada — e os bancos expostos a essas empresas carregam esse risco em suas carteiras.
A resposta do Banco Central do Brasil
O CMN e o BCB incorporaram ou explicitamente o risco social, o risco ambiental e o risco climático à regulação prudencial brasileira, basicamente através da Resolução CMN nº 4.945 – política de responsabilidade social, ambiental e climática (PRSAC) e da Resolução BCB nº 139 — relatório de riscos e oportunidades sociais, ambientais e climáticas (RSAC).
Risco tecnológico e cibernético: a nova fronteira do risco operacional
A crescente dependência da tecnologia transformou o risco cibernético em um dos principais riscos sistêmicos do sistema financeiro contemporâneo. As instituições financeiras são alvos prioritários de ataques cibernéticos — pelo volume de recursos que movimentam, pela sensibilidade das informações que detêm e pela importância crítica de suas operações para a infraestrutura econômica.
Falhas tecnológicas, ataques de ransomware, interrupções operacionais e violações de dados podem gerar perdas financeiras diretas, mas também impactos indiretos muito significativos: danos à reputação, perda de confiança dos clientes, responsabilidades legais e regulatórias, e até pressões de liquidez se a interrupção das operações for prolongada.
A regulação prudencial modernizou sua abordagem ao risco operacional para incorporar explicitamente a dimensão tecnológica. O conceito de resiliência operacional — a capacidade de absorver eventos de risco operacional e continuar prestando serviços essenciais — tornou-se uma prioridade central tanto para as instituições quanto para os reguladores.
O impacto no cálculo de capital: o ICAAP e os riscos emergentes
Os riscos emergentes possuem impacto direto no cálculo de capital, ainda que de forma frequentemente indireta. Como esses riscos se manifestam por meio de canais de transmissão para os riscos tradicionais — o risco climático pode gerar risco de crédito; o risco cibernético pode gerar risco operacional — eles acabam sendo incorporados, com maior ou menor grau de sofisticação, ao cálculo de capital.
O processo ICAAP (Internal Capital Adequacy Assessment Process) exige que as instituições dos segmentos S1 e S2 da Resolução CMN nº 4.553 avaliem todos os riscos relevantes, incluindo aqueles não plenamente capturados pelos modelos padronizados. Isso inclui explicitamente riscos climáticos, cibernéticos e outros riscos emergentes.
O regulador pode, com base nessa avaliação, exigir capital adicional (Pillar 2) se considerar que os riscos não estão adequadamente cobertos pelos requerimentos mínimos regulatórios.
O surgimento de novos ativos e modelos de negócio
A transformação digital também introduziu novos tipos de ativos — como criptoativos e tokens digitais — e novos modelos de negócio — como fintechs, plataformas de crédito digitais e serviços financeiros incorporados (embedded finance). Esses ativos e modelos apresentam características de risco diferentes dos ativos e modelos tradicionais, incluindo maior volatilidade, menor liquidez e incerteza regulatória.
O Banco Central do Brasil está desenvolvendo o arcabouço regulatório para esses novos ativos, conforme evidenciado pelo Edital de Consulta Pública nº 126/2025, que trata especificamente do tratamento prudencial de criptoativos. Isso reflete a necessidade de adaptar o arcabouço regulatório à evolução do sistema financeiro, garantindo que novos riscos sejam adequadamente identificados e capitalizados.
O crescente papel do julgamento prudencial
Um aspecto fundamental dos riscos emergentes é que eles frequentemente não podem ser plenamente capturados por modelos quantitativos baseados em dados históricos. A incerteza inerente a eventos sem precedente histórico — como uma pandemia global, uma crise climática de grande escala ou um ataque cibernético sistêmico — limita a eficácia das abordagens puramente quantitativas.
A supervisão prudencial moderna combina crescentemente métricas quantitativas com avaliação qualitativa. Isso inclui a avaliação da qualidade da governança, da robustez da cultura de riscos e da capacidade institucional de identificar e gerenciar riscos emergentes. O julgamento prudencial do supervisor — e a qualidade do julgamento técnico dos profissionais das instituições — torna-se progressivamente mais importante.
Oportunidades no contexto de riscos emergentes
É importante reconhecer que riscos emergentes não são apenas ameaças — eles também criam oportunidades significativas para as instituições que conseguem compreendê-los e gerenciá-los adequadamente.
O financiamento sustentável é um exemplo claro: instituições que desenvolvem expertise em avaliação e financiamento de projetos de energia renovável, eficiência energética e outros projetos de baixo carbono estão posicionadas para capturar uma demanda crescente e diferenciada de crédito. Da mesma forma, instituições que investem em resiliência cibernética de forma mais eficiente do que seus concorrentes obtêm vantagem competitiva relevante.
Conclusão: a gestão de riscos em transformação constante
Os riscos emergentes são, por definição, evolutivos. O perfil de riscos do sistema financeiro de amanhã será diferente do de hoje — e os profissionais e instituições que melhor anteciparem e se adaptarem a essa evolução estarão em posição mais vantajosa.
Para profissionais de gestão de riscos, isso implica desenvolver continuamente novas competências: compreensão de modelos climáticos e seus impactos financeiros, fluência em segurança cibernética e resiliência operacional, capacidade de analisar novos modelos de negócio e ativos digitais. A formação contínua não é um luxo — é uma necessidade.
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